Depois de giro em ruas, Bolsonaro fala em acabar com isolamento via decreto

0
17

Na contramão do ministro da Saúde, que reforçou ontem, sábado (28), a importância de os brasileiros ficarem em casa para barrar o novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro anunciou hoje, domingo (29), que estuda liberar o retorno às atividades de trabalhadores formais e informais que precisam “levar sustento” para casa.

O presidente fez este anúncio durante um passeio a pé pela manhã por Brasília e por regiões populosas do Distrito Federal, como Ceilândia, Taguatinga e Sobradinho, desrespeitando as orientações não apenas das autoridades de Saúde do Brasil, mas do mundo, que pedem para evitar aglomerações e contato próximo.

Durante a saída o chefe do executivo não guardou a distância de um metro recomendada e ficou bem próximo das pessoas que queriam vê-lo, falar com ele, fotografá-lo e filmá-lo com seus celulares. Ele tirou fotos com frentistas em um posto de gasolina no Plano Piloto e não respeitou esse espaço de segurança. Também parou para conversar com um vendedor e viu, ao seu redor, nova aglomeração surgir.

Bolsonaro caminhou entre idosos, isto é, indivíduos que fazem parte de um grupo de risco, parecendo se esquecer que ele próprio pertence ao estrato mais vulnerável, pois tem 65 anos.


NOVO DECRETO — “Estou com vontade de baixar um decreto amanhã. Toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar sustento para seus filhos, para levar um leite para seus filhos, arroz e feijão para sua casa, vai poder trabalhar”, afirmou o presidente, em desobediência ao Ministério da Saúde e à Organização Mundial de Saúde.

Ele não informou que profissão se encaixaria na categoria “necessária para levar sustento para os filhos”, nem qual seria excluída desse critério. Durante este contato com os trabalhadores informais hoje, Bolsonaro rebateu o questionamento sobre a pertinência de seu passeio. “Eu também estou trabalhando. Considero essa minha atividade um serviço. Estou do lado do povo para saber os problemas deles”, argumentou. “Eu estou na linha de frente com meus soldados. Sou general, mas estou na linha de frente. Se tiver que farei de novo, farei”, disse em outro momento.

CRÍTICA A GOVERNADORES — Demonstrando irritação, o presidente voltou a fazer referência — sem citar nomes — à disputa com governadores como João Dória (PSDB), de São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro, que vem adotando medidas de interrupção de atividades para conter a propagação do vírus — como fechamento de estabelecimentos comerciais e cancelamento de aulas e em escolas e universidades.

O chefe do executivo federal disse que quem estiver “trabalhando de casa” vai ser posto de férias ou demitido se a situação continuar. “Não podemos tratar esse assunto com demagogia, disputa eleitoral. Tem que tratar com seriedade. Temos que cuidar da vida e do emprego”, disse, antes de emendar. “Vai enfrentar como homem, pô.” Não como moleque. Vamos enfrentar o vírus como realidade, todos nós vamos morrer um dia”.

Bolsonaro também criticou a decisão da Justiça Federal do Rio de Janeiro, que o proibiu de adotar medidas contra o isolamento social e suspendeu a validade de trechos de dois decretos que classificavam igrejas e casas lotéricas como atividades essenciais, garantindo o funcionamento mesmo com orientações contrárias de estados e municípios.

NÃO QUER FICAR EM CIMA DO MURO — O presidente ainda afirmou que não pode “ficar em cima do muro” ou se preocupar “com o politicamente correto” na gestão da crise do coronavírus. Em diversos momentos da entrevista a repórteres na entrada do Palácio do Alvorada, sua residência oficial, ele disse que apesar “do problema do vírus”, é preciso preservar os empregos.

“Como chefe que sou tenho que assumir riscos, para o bem ou para o mal. Tenho que tomar decisão. Não posso ficar em cima do muro. Não posso me furtar de assumir posições. Eu vou para o meio do povo. Quem me critica não vai. Eu vou porque eu sou povo, estou do lado do povo brasileiro. E assim no meu entender tem que se comportar um chefe de Estado”, afirmou.

Segundo projeções do ministério da Saúde, se os contatos sociais não forem reduzidos no Brasil, os casos de coronavírus devem duplicar a cada três dias. Segundo dados oficiais, o país tem 3.904 infectados pelo coronavírus e 111 mortos. Mas os números reais são muito maiores, já que muitos infectados não têm sintomas e não há testes para todos.



CURTA/SIGA/ACOMPANHE-NOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here